segunda-feira, 19 de março de 2012

Maximização versus Otimização

17/03/2012 - por Leonardo Boff

Há uma ética subjacente à cultura produtivista e consumista, hoje vastamente em crise por causa da pegada ecológica do planeta Terra, cujos limites foram ultrapassados em 30%. Nunca mais vamos ter a abundância de bens e serviços como até há pouco tempo dispúnhamos. A Terra precisa de um ano e meio para repor o que lhe extraímos durante um ano. E não parece que a fúria consumista esteja diminuindo. Pelo contrário, o sistema vigente para salvar-se, incentiva mais e mais o consumo que, por sua vez, requer mais e mais produção que acaba estressando ainda mais todos os ecossistemas e o planeta como um todo.

A ética que preside a este modo de viver é a da maximização de tudo o que fazemos: maximizar a construção de fábricas, de estradas, de carros, de combustíveis, de computadores, de celulares; maximizar programas de entretenimento, novelas, cursos, reciclagens, produção intelectual e científica. A roda da produção não pode parar, caso contrário ocorre um colapso no consumo e nos empregos. No fundo, é sempre mais do mesmo e sem o sentido dos limites suportáveis pela natureza.

Imitando Nietzsche perguntamos: quanto de maximização aguenta o estômago físico e espiritual humano? Chega-se a um ponto de saturação e o efeito direto é o vazio existencial. Descobre-se que a felicidade humana não está em maximizar, nem engordar a conta bancária, nem o número dos bens na cesta de produtos consumíveis. O fato é que o ser humano possui outras fomes: de comunicação, de solidariedade, de amor, de transcendência, entre outras. Estas, por sua natureza, são insaciáveis, pois podem crescer e se diversificar indefinidamente. Nelas se esconde o segredo da felicidade. Mas nas palavras do filósofo Ludwig Wittgenstein citando Santo Agostinho:“tivemos que construir caminhos tormentosos pelos quais fomos obrigados a caminhar com multiplicadas canseiras e sofrimentos, impostos aos filhos e filhas de Adão e Eva” para chegar a esta tão buscada felicidade.

Logicamente precisamos de certa quantidade de alimentos para sustentar a vida. Mas alimentos excessivos, maximizados, causam obesidade e doenças. Os países ricos maximizaram de tal maneira a oferta de meios de vida e a infra-estrutura meterial que dizimaram suas florestas (a Europa só possui 0,1% de suas florestas originais), destruíram ecossistemas e grande parte da biodiversidade, além de gestar perversas desigualdades entre ricos e pobres.

Devemos caminhar na direção de uma ética diferente, a da otimização. Ela se funda numa concepção sistêmica da natureza e da vida. Todos os sistemas vivos procuram otimizar as relações que sustentam a vida. O sistema busca um equilíbrio dinâmico, aproveitando todos os ingredientes da natureza, sem produzir lixo, otimizando a qualidade e inserindo a todos. Na esfera humana, esta otimização pressupõe o sentido de auto-limitação e a busca da justa medida. A base material sóbria e decente possibilita o desenvolvimento de algo não material que são os bens do espírito, como a solidariedade para com os mais vulneráveis, a compaixão, o amor que desfaz os mecanismos de agressividade, supera os preceitos e não permite que as diferenças sejam tratadas como desigualdades.

Talvez a crise atual do capital material, sempre limitado, nos enseje viver a partir do capital humano e espiritual, sempre ilimitado e aberto a novas expressões. Ele nos possibilita ter experiências espirituais de celebração do mistério da existência e de gratidão pelo nosso lugar no conjunto dos seres. Com isso maximizamos nossas potencialidades latentes, aquelas que guardam o segredo da plenitude, tão ansiada.

Leonardo Boff é autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes 2005.

via: Permacultura Social Brasileira

quarta-feira, 14 de março de 2012

Mentes Criativas: Canais Propícios para Inovação

Andre Bianchi, para Endeavor


E o seu negócio, viabiliza a inovação vinda das bases ou prefere não resolver os problemas que nem sabe que existem?

Coisas curiosas acontecem ao fazer o balanço de anos e anos de consultoria. Não raramente ouvi a descrição que o consultor entra na empresa, ouve dos funcionários tudo que deveria ser feito, escreve em um relatório bonito, apresenta para o conselho, cobra a peso de ouro e assim garante que as idéias, agora valorizadas são implementadas.



Pois bem, ainda que não concorde a 100% com a colocação, me deparei sim com inúmeras situações em que a solução para os problemas da organização e para a inovação já estava presente nos colaboradores da empresa, mas sem a atenção devida, valorização ou canais de comunicação que permitissem que essa inovação aflorasse.

 


Como exemplo, nos anos 90, trabalhando com a empresa Marzotto, italiana líder em tecidos finos e recém compradora da Hugo Boss, lideramos um projeto de redução de perdas (descartes) na produção de tecidos. Criamos uma usina de geração de idéias com a participação de todos os operários das 3 fábricas principais da empresa. Foi uma surpresa que a série de “focus groups” realizadas em 2 semanas, geraram cerca de 100 idéias, que priorizadas pelo potencial e por necessidades de investimentos geraram duas ondas de implantação, que em um primeiro momento reduziram as perdas em 25% imediatamente e com o potencial de redução de 50% com a contribuição das idéias que necessitariam investimentos.

Boa notícia então para a Marzotto que teve seu investimento pago na consultoria retornado quase imediatamente. Má notícia porêm, pois os efeitos colaterais por anos e anos de falta de atenção aos seus próprios talentos custaram na verdade muito mais caro.

O fato de não se criar um ambiente e canais propícios à inovação e à resolução de problemas faz com que os talentos da empresa ao longo do ano se acomodem ou pior procurem novos desafios em outras empresas. Nao raro ouvimos frases, como “falei isso durante 5 anos, ninguém parece querer ouvir, desisti de trazer meu intelecto ao trabalho, pois querem que eu faça somente um trabalho manual.

E assim acaba sendo em todos os níveis. Em geral as pessoas tem sempre muito mais a oferecer se energizados e inspirados por uma visão com liberdade e responsabilidade. Infelizmente muitas empresas ainda vivem na visão do passado do controle e gerenciamento minimalista, colocando seus melhores talentos em caixinhas limitados de todo o seu potencial.

E o seu negócio, viabiliza a inovação vinda das bases ou prefere não resolver os problemas que nem sabe que existem?




Fonte: Endeavor